Uniuv é a segunda universidade que recebe o documentário da Guerra do Contestado “Terra Cabocla”

Acadêmicos de Comunicação Social, Secretário Executivo e História prestigiam documentário sobre a Guerra do Contestado e também o debate com o professor Lúcio, Wanilton e o egresso João Batista (JB).

Repórter: Luciana Ignaszevski– acadêmica do 5º semestre de Jornalismo

 

11652258_918148454907902_1279927339_nO frio não espantou a animação dos acadêmicos de Comunicação Social – Jornalismo e Publicidade e Propaganda, do Centro Universitário de União da Vitória (Uniuv). Muita pipoca e curiosidade foram encontradas na sala de eventos na última quarta-feira, 17, onde os acadêmicos puderam assistir ao documentário “Terra Cabocla”, que conta a história da Guerra do Contestado. Também participaram do evento os acadêmicos de Secretariado Executivo e do curso de História, da Universidade Estadual do Paraná (Unespar).

A professora da Uniuv, Angela Farah, fez a abertura do evento, agradecendo a presença de todos e principalmente do egresso de Jornalismo, João Batista, mais conhecido como JB. “O JB, quando veio fazer o curso de Jornalismo na Uniuv, já era radialista, já fazia pesquisas sobre o Contestado e o seu trabalho de conclusão de curso foi sobre a história de Calmon na Guerra do Contestado. Ele lançou seu livro e hoje está participando deste documentário tão importante para a nossa região.” O documentário foi lançado em 2015, e foi produzido pela Plural Filmes, com direção de Marcia Paraiso e Ralf Tambke. A Uniuv foi a segunda Universidade a receber o lançamento da longa metragem, que conta a história da resistência do povo caboclo na região do planalto catarinense, 100 anos após a Guerra do Contestado.

Conhecendo a Guerra do Contestado

11650972_918148461574568_1352920704_nA Guerra do Contestado aconteceu entre 1912 e 1916 e, no documentário, por meio de depoimentos de moradores e historiadores, é revelado o real motivo de ela ter acontecido, mostrando a voz, os costumes, cultura e a religiosidade dos caboclos. O longa pretende tirar o peso do fanatismo religioso, trazendo o foco para a questão da terra.  “Naquela época a Guerra foi escondida, ela não se encaixava com o projeto do governo catarinense, que queria um estado “moderno, branco e europeizado”, diz o historiador Paulo Pinheiro Machado.

O filme percorreu a região do Planalto Catarinense buscando registrar, nas antigas comunidades, chamadas “redutos santos”, a raiz cabocla que se mantém viva a partir de alguns projetos, como o do grupo de jovens Resgate. “A história estava parada, essas caminhadas do Contestado que existem hoje são frutos do nosso grupo”, afirmou JB, que criou há alguns anos o Grupo Resgate, que busca incansavelmente as histórias do Contestado. A questão da luta pela terra, o preconceito e a forte desigualdade social que mantém a região com o menor índice de desenvolvimento humano no estado de Santa Catarina ainda é reflexo da Guerra e do descaso do poder público.  “Olhando para mim, no meu rosto, eu sou um caboclo nato do Contestado! Eu ajudei nesse filme e levei a equipe a alguns pontos para fazer as imagens, tudo isso com a intenção de resgatar um pouco da nossa memória cabocla que está esquecida na região do Contestado”, comenta JB. Segundo JB, o documentário era para ser um curta de meia hora e se transformou em um longa de 1 hora e 20 minutos. “Teve tanto material que está sendo pensado em fazer um segundo documentário”, comenta JB.

 

Um debate cheio de história

11653214_918148464907901_1240805098_nApós a exibição do documentário, aconteceu um debate entre o professor e coordenador do curso de Jornalismo, Lúcio Kürten dos Passos (que está desenvolvendo sua tese de doutorado com base em narrativas visuais do Contestado, a partir de fotografias de Claro Jansson sobre o episódio), com o historiador e professor da Uniuv, Wanilton Dudek, e também com o egresso e um dos entrevistados no documentário, João Batista (JB).

Passos fez a abertura do debate, agradecendo a presença de todos e principalmente do egresso JB. Afirmou que foi o melhor documentário do Contestado que já viu, foi o mais esclarecedor, tanto no ponto de vista social da guerra, quanto o lado científico, o tratamento do caboclo no aspecto geral.  Aproveitou para falar da pesquisa que está produzindo para o seu doutorado, que trata sobre a Desconstrução da imagem do caboclo na Guerra do Contestado por meio da fotografia. “Estou muito feliz nos últimos dias, pois a família do fotografo Claro Jansson abriu seu acervo e me enviou mais de 100 fotos do episódio”, expôs Passos. Em sua fala, contou um pouco da história de Jansson que trabalhou em dois momentos na Guerra: primeiro como fotografo profissional para a Madeireira Southern Brazil Lumber & Colonization Co. Inc. e, em um segundo momento, trabalhou como oficial do exército. Segundo Passos, as imagens que as pessoas conhecem da Guerra do Contestado são estritamente produzidas com vínculo editorial. “Todas as imagens do caboclo mostra ele posicionado em uma condição inferior, sempre o ângulo de cima pra baixo, mostrando submissão”, comenta Passos.

O acadêmico do terceiro ano de Publicidade e Propaganda, Victor Ilkiu, morador da colônia Anta Gorda, no município de Porto Vitoria, gostou tanto do documentário que se identificou muito. Ele conta que vivencia muitas coisas todos os dias, como as benzeduras, música gauchesca bastante presente no documentário.  “Minha bisavó era indígena, então por que não me intitular como caboclo?”.

 

Estudo da guerra na grade curricular:

T11541283_918148384907909_2147375712_nambém foi discutida a implantação do estudo sobre a guerra na grade curricular das escolas e universidades. “Todo e qualquer fato social com essa proporção gigantesca merece ser estudada, porque é a partir de momentos como esse que surgem novas tendências, teorias, cultos, religião etc”, diz Passos.

Segundo o historiador Dudek, o documentário é muito esclarecedor, é ideal para todos os públicos, ele propõem assuntos que não haviam sido tocados. É ideal para as pessoas que não querem ficar na acadêmica recebendo teses e mais teses para analisar o assunto. “As pessoas não dão importância para essa história, muitas delas não sabem o que aconteceu até hoje. Muitos professores dão mais importância a outras guerras, como a Revolução dos Farrapos, e se esquecem de dar ênfase ao que aconteceu aqui. Por isso é muito importante colocar esse estudo na grade curricular dos alunos”, comenta Dudek.

 

Crítica ao termo “Guerra”:

Dudek apr11650733_918148438241237_1407510770_noveitou para criticar o termo “Guerra”, alegando que isso não é aplicável, pois a guerra é algo que tem duas forças que entram em conflito. “O que aconteceu no Contestado não foi isso. A Lumber construiu a estrada de ferro e, em acordo com o governo, tinha o direito de desapropriar 15 km de terras de cada lado da estrada de ferro. As pessoas que viviam ali teriam que sair das suas casas. Isso foi o auge do conflito, o governo não fez nada para impedir isso, parecia simples, chegar lá e tirar essas pessoas”.

Outra questão bem importante são os monges, que até hoje as pessoas tem no imaginário social, e isso é muito forte tanto em União da Vitória quanto Porto União. “Temos uma imagem do monge João Maria na fachada da Unespar, e também temos o santuário com o ‘pocinho do João Maria’ entre outras coisas que nos fazem lembram eles”, afirma a acadêmica de Publicidade e Propaganda, Aline Figura. Segundo o historiador Dudek, a estética do documentário ficou maravilhosa, não é uma coisa maçante, então tudo isso contribui para as pessoas entenderem o que aconteceu. “Só se forma a identidade se você entender. Se você não consegue se reconhecer como parte desse processo, você aprendeu mais sobre a Revolução da Farroupilha do que do Contestado, simplesmente pelo fato do professor não se reconhecer como parte daquele processo. Temos um jornalista que se auto identifica com o caboclo, isso é muito importante, essas novas gerações, elas começam também a contar a sua história e a gente começa a crer que alguns aspectos são contáveis”, comenta Dudek

11650820_918148368241244_1856744766_nPara o acadêmico de Jornalismo, Cristiano Michahowski, o mais interessante foi o debate, pois ele discutiu a questão da região não ter muito conhecimento sobre a guerra que aconteceu aqui. “Apenas tomamos mais conhecimento na faculdade, os professores acabam dando mais importância a guerras como a dos Farrapos, por exemplo”. Dudek ainda comentou um pouco sobre o seu projeto, que é o Programa de Incentivo à Pesquisa Acadêmica (Pipa). O seu tema vai contar a Segunda Guerra Mundial na região de União da Vitoria e Porto União, em um formato tão acessível, claro, e de fácil compreensão, como o documentário Terra Cabocla.

 

Primeiro Prêmio

O documentário, que foi lançado em março deste ano, recebeu o certificado Carbon Free por ter suas emissões de carbono compensadas com a Iniciativa Verde. O Programa Carbon Free foi desenvolvido pela Iniciativa Verde para que as emissões de gases de Efeito Estufa (GEE) decorrentes de qualquer atividade humana como, por exemplo, as viagens realizadas para as gravações do documentário, sejam compensadas. Essas atividades emitem direta ou indiretamente uma quantidade de gases que podem agravar o aquecimento global. No Programa Carbon Free, a Iniciativa Verde faz o plantio de árvores nativas na Mata Atlântica compensando essas emissões.

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